30 de março de 2008

Os filhos da Guerra

Não foram os gritos e os tiros que rasgaram meus ouvidos dessa vez, o sol se encarregou de me acordar no mesmo buraco das noites passadas, no meu bolso ainda estava á foto de Henri, beijei e entreguei-a novamente ao bolso com botão.

A última carta que consegui receber dela durante a guerra foi há dois meses quando ainda estávamos na Alemanha, Henri já estava na escola e fez questão de falar doçuras no final da carta, dizia contar os dias pela minha volta. Maldita guerra!

Não há muito o que se pensar na guerra, peguei a arma e fui para meu posto perto de uma casa que já estava com boa parte demolida, era rotina ficar ouvindo os soldados gritarem para saber como estava a visualização ou os ouvidos se sentirem ameaçados pelo silêncio, por incrível que pareça, na guerra o silêncio é um mal sinal, a qualquer hora alguma bomba pode estourar sua cabeça.

No caminho até o meu posto me lembrei das cenas de combate do dia anterior, fomos treinados para não enxergar a morte à nossa volta, a única ordem é matar qualquer um diferente da nossa roupa; e eram tantas diferentes.

Quando não havia mais nada senti um gosto de último dia de vida, já que a morte é um mistério que só quem morre poderá desvendar, morrer pode ser uma arte ou uma fatalidade, mais matar com tiros uma alma é a sensação mais fria que já fiz na vida, carregar equipamentos com bombas e arrasar cidades inteiras em um segundo e matar pessoas que teriam uma vida inteira pela frente é algo que nos faz ter mente de mostro e coração de criança.

Já perdi a conta de quantos matei, tenho medo de quando forem me julgar se é isso realmente que se esconde neste mistério de morte e vida.

Peguei meu cantil e joguei um pouco de água no rosto, a água fria sempre me ajudou a afastar esses pensamentos de morte e tristeza.

Fui para perto de Gérard, o francês que se juntou à nossa tropa, dono de uma lábia infalível com as enfermeiras, e uma mira certeira, herdada do pai um velho combatente da primeira guerra. Incrível como ele ainda tinha disposição e humor pra contar suas piadinhas sem graça, acho que alguns nascem com a guerra na alma.

Em um piscar de olhos sua fala foi interrompida por uma bala certeira, tive só o tempo de tocar a sirene enquanto o via cair morro abaixo rolando feito pedra.

Enquanto o corpo rolava e a graça sumia do ar os aviões faziam sua missão fuzilando todos os nossos companheiros de guerra que só paravam de atirar quando caiam sobre suas armas, descansados de toda essa ignorância humana, corri e me atirei sobre as pedras que me protegiam da chuva de balas.

Tarde de mais, senti uma dor muito forte no peito, no lugar exato onde estava a foto de Henri, ao ver a foto de Henrri um furo escondia seu rosto, à minha hora havia chegado e colocado no meu peito o rosto da minha criança, por uma bala que tinha milhões de direções.

Como é triste ver a morte chegar, devo merecer ela dessa forma, já que fiz questão de apresentar ela a adultos e crianças, como a morte é calma, a quanto tempo eu não me sentia em paz.

Texto produzido com a Marina.

Um comentário:

Zololkis disse...

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